Depois de dez anos de luta e acompanhamento de severa miopia, Deise confirmou sua cegueira, no dia de seu aniversário de quinze anos. Fez o segundo grau, faculdade de Sociologia da Unicamp, foi admitida em grande empresa como estagiária (após três meses de batalha, exigindo ser avaliada em sua capacidade, apesar da deficiência), imediatamente contratada após o estágio, disputada como excelente colaboradora durante trinta e um anos de trabalho.

 

Já aposentada, busca mais atividades (é professora universitária, dá palestras e cursos de atendimento ao cliente, cursos de desenvolvimento de líderes e de inclusão de pessoa com deficiência e gestão da diversidade). Mocinha em grupo de teatro conheceu o moço que seria seu marido. Para uma aparência cuidada, com maquiagem, convenceu o companheiro a fazer o curso para poder sempre ajudá-la.
Quis ser mãe, após casar, aos vinte e seis anos. Cuidou de três filhos, hoje adultos. Buscou preparo com a terapeuta ocupacional do Centro Cultural Louis Braille (Campinas) e foi treinada em troca de fraldas e cuidados gerais que precisamos ter com um bebê, em abordagem adaptada para seus recursos... Foi criando técnicas próprias, quando sozinha em casa, andava de costas, carregando o bebê, para não correr risco de bater seu corpinho em um móvel ou batente de porta.
Para permitir que a criança engatinhasse e mesmo assim ela tivesse a noção de onde estaria, aprendeu a colocar um guizo em seu pescoço. Se o som parasse repentinamente, era hora de se aproximar e conferir o que estava acontecendo!Ao alimentar o bebê, inverteu a relação – a colher com o alimento sempre estava fixa, no mesmo lugar, e as boquinhas aprenderam a chegar até o alimento. Na hora das lições de casa pedia para a criança ficar de pé, atrás de sua cadeira, e desenhar letra por letra, de cada palavra da lição, com o dedinho como um lápis, em suas costas, até ela conseguir entender a frase para explicar o que a tarefa pedia.
Eram sessões de carinho mútuo. Lembra que certa vez pressentiu “arte” de seu filho de três anos, mexendo em vaso de planta próximo da pia em que lavava louça. Pediu que parasse. A criança concordou, mas perguntou –“Mãe por onde você enxerga?”. Ela respondeu – “Pelo coração, filho!” Como toda criança, ele pouco tempo depois voltou ao vaso proibido, mexeu de novo, e Deise repetiu o pedido de parar com a arte.
Nova pergunta da criança –“Mãe, mas aonde é o seu coração?” (já que ela permanecia de costas para ele). Deise respondeu:- “Coração de mãe é de todo o lado!” “Para enxergar claro, basta mudar a direção do olhar” – Antoine de Saint-Exupery.

 

Caso real, nome real. Elizabeth Fritzsons da Silva, psicóloga e diretora da Unidade de Atenção aos Direitos da Pessoa com Deficiência, Blog: http://diferenteeficientedeficiente.blogspot.com/

 

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